Vista 
De onde / De onde se vê, se enxerga o quê? / Se na vista daí o mundo é assim, o real pra ti / História.../ História por trás desse lugar / O caminho que te levou pra aí / História que se viveu / Quem se vê como dos seus / Quem se vê de longe, o que importa de fato? / De onde se vê, quem é, qual mundo, que espelho, horizonte, que rumo, o que diz / De onde se vê, qual Céu, qual Inferno, e com lá são, que de certo não vão daqui / Os sãos / Os sãos no espelho como são / Hospício é pra ser visto de fora pro bem de quem vê / Nos outros, dos próprios demônios o exorcismo / Linchando a certeza do seu bem se o mau está ali / Quem se vê como dos seus? / Com quem mesmo, o que te importa de fato?


Do jogo

Vê-se o que se faz para ter / Cedo se aprende o fetiche o Céu sem limite acima / O que for, vale fazer / Lavado o sujo, tudo é do jogo, enfim / Cada por si / Cada um o seu lugar de onde sai / Até onde se chega / Conforme o poder, jogar                       


2016
O fascista semeia o ódio, o preconceito e se sente bem / Classe média que inveja o rico não quer ver pobre no seu degrau / Arrogante orgulhoso, casta escravista, elite imperial / E o fardado mal pago reprime covarde no pequeno poder que tem / Esse, que mundo quer? / Esse, espera o quê? / Esse, o que constrói? / Onde quer viver? / Conservador do quê? / Por qual ideal se move? / O coxa que merda de mundo pensa manter? / Falcatrua, sonega, dos velhos esquemas, golpista de falsa moral / E o metido a roqueiro reaça é rebelde no que afinal / De outro lado só se olha mais pra quem menos tem / Outro lado sempre tentou um mundo mais igual / De outro lado só se sonha mais / De outro lado só não se crê... / No conto do vencedor que nos faz desiguais / Que um Deus-Mercado dá o justo valor do que cada um faz / Que é livre um jogo que poucos têm poder pra regrar / Que é justo um jogo que uns nascem ganhando

Globotomia
O melhor sinal / Desde sempre foi / Tantas concessões / Império de golpes, campanhas / Padrão de lazer / Parte da rotina / Tradução do real / Trilha de fundo das casas / O quadro das salas / Janela pro mundo / Fábrica do senso comum

Valores
Quanto vale o que alimenta a tua vaidade? / Pelo que tu dás valor pra alguém? / Quanto satisfaz um poder qualquer? / Qual é o preço da tua venda? / Há pelo que se impor? / Vale quanto o que constrói a imagem que tens a afirmar? / Quanto vale a conveniência do esquemão? / A infâmia que a arrogância esconde em si? / Qual é o custo da tua renda? / Quais valores mostram quem / Validade ainda que se tem / Até perder / Vale-se o quê / Até se perder / Até apodrecer

Autoajuda
Se é pra ser assim / Mais um sem nada o que herdar / Não há mais o que cercar pra então dizer ser seu / Mas quantas almas menos têm / Emergentes se dão bem / Aprendendo as regras e jogando / O jogo não contém vencer sem passar de alguém / Quem não vê pra crer, sabe esperar sua vez / Assim nasceu foi Deus / Com grana dá pra conformar / E dá pra ver TV, saber o que comprar mais / Machos-alfa ostentam bens / E o que mata faz também sorrir sentindo orgulho por causar inveja

Atitude
Eu quero aparecer não tenho nada a dizer / Atitude está na grife ou no modismo a seguir / Todo mundo é livre pra escolher entre o que vê / E se é preciso ter nossos heróis / E projetar-se na vida que se sonha viver / E o que vou comprar então / do que gostar ou não / são jabás que decidem / A proposta é irrecusável sempre que for maior / Faço o que precisar, o que o mercado impor / Sucesso mede quanto vale a vida do ser / Tudo se massifica, todos vão se vender

Segurança
Vou fingir que não fico tão a fim assim pra me impor / Vou mostrar que sou o que sei que contará a meu favor / Entre a escolha e o fim / Entre o que há possível / Tempo e quase ninguém / Vou esconder as vezes que penso em não estar onde estou, / e nem sempre estar imune ao ego inflado, ao novo, ou ao que passou / Entre a escolha e o fim / Entre o que há possível /  Tempo e quase ninguém tão diferente assim / Entre o mais cômodo e o que se pensa e se diz / O que se fez ou que um dia se quis / Talvez preferir, sem dizer, não existir o que não faz bem

Linhas tortas
Crias imperfeitas da perfeição / Nossa existência é um favor, concessão / Quiçá alguns castigos, mas peçam perdão / É livre o arbítrio, sempre agradeçam / Não se iludam / Sequelas são prêmios se a vida seguir / Em paz quem sofria descansa enfim / Linhas tortas, preces em vão / Quem são vocês pra ousar compreensão / Não se iludam / O ônus da prova é seu / Pra garantir, tente provar fé incondicional sempre / Que um bem estar eterno está por vir / Essa vida breve é só um treino / Então, conforte-se / Nos veremos no Céu / Amém

Marcha da Família com deus pela Liberdade
Homens de bem / Bons provedores / No fundo todas querem um macho que as sustente / Sorte e orgulho / Graças a Deus  Mulher consumista e fútil entretém-se / Às vezes na igreja família normal / Sempre se peca, faz parte o bordel / Paga-se as plásticas, exibe-se o troféu / Quem não é hipócrita? / Melhor que ser ateu / Racista nem tanto, comentários normais / E que nunca minha filha apareça com um  / Gays doentes provocam minha normalidade / Da raiva de ver, se vem espanco / Todos têm sua benção / Homens de bens / Bem sucedidos / No preço do carro o status que têm / Sorte e orgulho / Graças a Deus / O mundo é assim, sabe com quem está falando? / Alguma falcatrua sempre se vai fazer / A lei para os outros, vantagem pra si / De arma na rua tem que se garantir / Maior que o risco a sensação de poder / Que torture, extermine, e que aceite suborno / Polícia em favela tem que entrar atirando / Se um foi confundido ou uma bala perdida é limpeza social preventiva / Todos têm sua benção

Alguém
Bem informar-se parta acompanhar / O que “tá se usando”, a tendência atual / Quando a essência é superficial / Há que se enquadrar afinal / Todos os recalques da indústria do ideal /  Exibe-se o prosaico em rede mundial / No reino da futilidade o que nos interessa é / Alguém pra quem fama vem de algum jeito /  Alguém em evidência um tempo, por si só um feito / Alguém que o banal que vive é notícia / Alguém que por mais vazio motivo é alguém / Que a própria imagem possa vender / Pra que venda o que for estampar / Alguém que tenha um paparazzo atrás  Que seja VIP onde vai / E a plebe corre atrás / se esmaga em frente /só esperando um instante pra foto e abanar pra alguém

Pós
Após dito que se faria de outro jeito / Depois da vida prática comum / Cumpridas as frescuras, todos os rituais  /  Depois que um romantismo ingênuo cai / Após mais tempo aprende-se a não confiar mais / Quem quer ter razão? / Vale a diversão / Amadurecendo aprimora-se o cinismo / Após mais tempo há mais lixo / Foda-se então / Após, culpa é só o medo que traz com o que se pode arcar / Algum pastor o cordeiro quer / E no rebanho um esquema bom pra si / Entre o mito, o dogma e os pragmáticos fins / Após mais tempo há mais lixo / Pós-guerra, pós-crise, outro vício / Após, culpa é só o medo que traz com o que se pode arcar

O que move
Quase todo tempo / Quase todo esforço / Quase tudo o que se andou até aqui / O que se produz / O que se criou / A recompensa que se espera ter / Tudo o que move o teu tempo vivendo aqui / Do que se pode ser, o que se busca enfim / O que vai ficar / O que vai seguir / Pelo que lembrar de ti / O que motiva os planos / Pelo que brigar / O que pode mais frustrar também / O que dá rumo e faz sentir-se maior / O que revela o teu caráter quando a chance é dada / Pra ter mais lago a tentar / Pra ser mais fácil deixar / Construiu-se o quê / Realizado ou não / Atrás do que correr / O que satisfez, pra quem? / O que moveu a vida / Quando quase morrer / O que vai fazer pensar valeu à pena o que se fez